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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

DA SALA DA CASA DO ALUNO À SALA DE AULA DO PROFESSOR: PARECENÇAS E ANTAGONISMOS

Francisco Carlos de Mattos*
CENA 1: SALA DA CASA DO ALUNO
  "Era uma casa muito engraçada não tinha teto não tinha nada ninguém podia entrar nela não porque na casa não tinha chão ninguém podia dormir na rede porque na casa não tinha parede ... " (A CASA, Vinícius de Moraes)
  A nossa formação acadêmica passa ao largo das chamadas Ciências da Natureza (Físicas e Biológicas) e, principalmente, da Matemática; entretanto, é interessante refletir aqui com você, e mais algumas pessoas que se interessarem pelo tema, a influência que ela tem sobre essa triste realidade ou, como queiram os mais radicais, essa baita sacanagem, que fazem com o povo brasileiro e, por extensão, com nossas crianças. Não é necessário que sejamos um Arquimedes, um Isaac Newton para entendermos que 1+1= 2. O salário mínimo do pai, somado ao da mãe, certamente deve dar para alguma coisa, mas não para uma alimentação saudável, que consiga acabar com a anemia profunda, que, silenciosamente, não lhe permite condições de igualdade com os colegas que tem melhores condições de vida (aqueles em maior proporção que esses. Você já teve a curiosidade de fazer esse levantamento estatístico nas suas salas de aula?). Tem-se uma profunda convicção de que os nossos alunos são, cartesianamente, produto dessa matemática (social), reflexos de uma insensatez humana fora dos parâmetros de qualquer racionalidade cristã - é mister lembrar que estamos em um dos países com o maior número de adeptos ao catolicismo e, hoje, com incalculável contingente de evangélicos -, e resultados de uma desagregação familiar, que é o final do fio do novelo, que começamos a desenrolar nessas mal traçadas linhas. 
Já que fomos à ponta final do novelo, procuremos, então, a outra. 
 Aqui nesta cena como na outra é possível perceber os lastimáveis fatos como conseqüências da gritante falta de Políticas Públicas, que promovam o desenvolvimento de emprego e renda e dêem condições de empregabilidade aos trabalhadores. E quando se fala em renda, é claro que não se está pensando em salário Mínimo, até porque, em cima desse não existe a menor possibilidade da existência daquele. Acordando às 05:00h (muitas vezes mais cedo), com o pai saindo para a esquerda e a mãe para direita, muitos desses meninos e meninas, hoje com 11, 12 e 13 anos, portanto os mais velhos de uma prole de 5, 6 ou 7, representam a mãe ou o pai que estão trabalhando e que só chegam lá para às 18, 19h. Independente desses aspectos arraigadamente negativos da nossa clientela (não no sentido comercial, capitalista), há que se levar em conta, que eles passam por uma fase da vida, por uma faixa etária, extremamente complicada; afinal, são ADOLESCENTES. Efervescência hormonal à flor da pele - muitas vezes parece que é a única "cobertura" óssea -, naturalmente barulhentos, irrequietos e "donos do mundo", são, nesta hora, tão protagonistas, que denotam não terem problema algum em suas vidas. Pelo menos é assim o que muitos professores pensam. Sim, esse ideário de pertencimento, essa representação mental de um espaço bem diferente daquele em que vivem, essa estratégia onírica, é usada como um entorpecente, para fugir de uma realidade dolorosa. 
CENA 2: SALA DE AULA DO PROFESSOR 
 "Educação é aquilo que fica depois que você esquece o que a escola ensinou". (Albert Einstein)
  Pegue uma moeda. Na primeira parte desse texto - a 'cara' – tentou-se desalinhar parte do novelo, usando a "sala da casa" do aluno como contexto. Cabe, sabe-se, um aprofundamento em muitas questões instigadas; mas, neste momento, não se tem tal perspectiva, não é pretensão caminhar por tal seara. 
Que se vire, então, a moeda: a coroa. 
O contexto é a sua sala de aula, professor. Insistir-se-á na Matemática enquanto paradigma, base fundamental para a tese defendida aqui. Ressalta-se, que ela é tão cruel quanto a que foi desenvolvida para analisar a performance daquele(a) adolescente antes de se transformar em seu(sua) aluno(a). Reconhece-se a sua preocupação, o seu sofrimento, a sua angústia ao ter que, final de ano letivo, pegar pacotes e mais pacotes de provas e lembrando-se de algumas espoletinhas, de certos 'erezinhos', que precisam de décimos ou, por outro lado (aí a angústia aumenta), mais do que tem que tirar numa única prova, para lograr aprovação. Então, nobre companheiro(a), já matematizando, se você é docente das disciplinas com as maiores cargas horárias da Matriz Curricular (LP, Matemática, Ciências), tem, no mínimo 4 tempos de aulas semanais, que, multiplicados por, aproximadamente, 4 turmas, completará uma certa carga horária exigida por determinados sistemas de ensino. Hipoteticamente (muito próximo da realidade) cada turma tem 40 alunos, que perfaz o total de 160 pirralhinho(a)s com 11 anos de idade (não estamos 'estatisticalizando' a distorção idade/série. Seria desgraça demais para um despretensioso texto!)), em fervilhantes e barulhentas turmas, tal qual uma revoada de pardais num fim de tarde, de 6º ano do Ensino Fundamental. Como você também, lá pelas 06:00h, sai para a esquerda e a sua mulher pela direita (com alguém tendo que deixar o Jr. ou a princesinha com a mãe ou sogra. Par ou ímpar antes de sair de casa ou semana minha, semana sua?), até porque o 'mar não está pra peixe' e é preciso pagar a prestação da casa própria ou o aluguel, o consórcio do carro, o supermercado no final do mês, a tv a cabo, a internet, o nextel (dela e o seu), a babá do baby, a faxineira, água, luz, telefone fixo, e, depois de tudo isso, o Imposto de Renda, etc., etc., etc., é necessário fazer dupla ou tripla jornada de trabalho, face a desvalorização profissional, que sempre foi uma constante na história do nosso país. Nesse caso, teremos, se tripla jornada, 480 preocupações, 40 dúzias de angústias. O enfoque dado neste parágrafo, comparando com o da primeira parte deste texto, mostra, ou pelo menos tenta, o brutal abismo existente entre as realidades da família do professor e a do aluno.
  CENA 3: FECHAM-SE AS CORTINAS. 
 “Fico feliz por suas palavras, mas confesso a você que estou desanimando, meu amigo. Você me conhece e sabe o quanto tento resgatar essas almas perdidas, mas parece uma luta quase solitária e em vão; pois, diversas foram as aulas que não dei só para conversar com a turma e tentar alertá-los, mas parece que de tudo o que falamos nada ou quase nada foi absorvido e o final é triste, chego a pensar: será que o erro está com a minha didática?” (Prof. X). 
 “Trabalhamos o ano inteiro, tentando mostrar aos nossos alunos a importância do aprender, mas infelizmente nem todos estão a fim de nos ouvir e no final é que eles começam a correr atrás, mas não tem condição. O tempo acabou. Quem sabe um dia eles despertam . Bom fim de semana” (Profª. Y). 
 Para falar de aluno que não quer nada, que é descompromissado, que não gosta de estudar (conta-se nos dedos de uma das mãos, talvez, de quem goste!), preguiçoso, bagunceiro, irrequieto, tagarela e tantos outros adjetivos, enfileiramos temas e mais temas caracterizados como falácias pedagógicas, conversas fiadas de pedagogos, que não estão dentro de uma sala de aula no dia a dia, para se defrontar com a realidade nua e crua, norteou-se essa breve reflexão para argumentos causais e não conseqüentes. Tentou-se focar ‘o que leva a ser’ em vez de ‘o que é’. Vários professores, em plena travessia da ponte ou, em função de sua fragilidade, da pinguela, não tem tempo de analisar o primeiro aspecto, evidenciando mais o segundo. Esse seria o primeiro passo do planejamento de ensino, recomendado pelos mais renomados pesquisadores desta área, entendido como conhecimento da realidade. 
É causa e não conseqüência a crise estrutural de emprego e renda no Brasil, que leva às desigualdades sociais profundas. Esse maquiavelismo sócio-econômico é a origem e não o efeito, de tantos meninos e meninas que fracassam na escola. Repetências seguidas levam, fatalmente, à evasão. Fracasso na escola é causa de insucesso na vida, que é, por sua vez, a razão de tantas mazelas sociais. E você, na rua, ao longe, avista um grupo de meninos em atitude meio suspeita. Ao aproximar-se, ouve a seguinte pergunta: _ Lembra de mim, tio? Eu sou Tonico e fui seu aluno há uns três anos. Vai na fé, tio! Tonico coloca a caneta na cintura e convoca a galerinha de mais três meninos de sua idade a bater em retirada. 
 Fecham-se as cortinas!
  •Mestre em Educação pela UERJ e Orientador Educacional da Rede Pública Municipal de Cabo Frio. Licença Creative Commons
Este obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 2.5 Brasil.
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