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domingo, 15 de abril de 2007

EU NÃO MATEI JOANA D´ARC E NEM ODETE ROITMANN E NEM O FARIA EM NOME DE DEUS

Francisco Carlos de Mattos*

E como Dante diz que não se faz ciência sem registrar o que se aprende, eu tenho anotado tudo nas

conversas que me parece essencial ¹..

Göebbels (ministro da propaganda de Hitler e pai do marketing) deve se remexer mais de mil vezes no túmulo sempre que seu pensamento é enunciado ou posto em prática. No atual contexto histórico, há sempre um jeito de fazer valer a máxima de que “uma mentira contada mil vezes se torna verdade”.
Não é preciso muito esforço intelectual, para deduzir que os que gostam de fazer uso dela são pessoas afeitas a falácias, falcatruas e maldades com seus pares, visando benefícios próprios.
Assim caminha a humanidade, reafirmaria Lulu Santos, onde os que a compõem, para não perderem o seu quinhão profissional e/ou para defendê-lo, lançam mão das mais diversas e cruéis estratégias. Os mais malvados chegam ao cúmulo de, para não haver mais perturbação, mandar “pulverizar” os seus desafetos. Outros, menos drásticos, fazem de tudo para tornar a vida dos seus inimigos um verdadeiro inferno, ao ponto de levá-los ao suicídio. Depois aparecem no velório com cara de ´Madalena arrependida`, para disfarçar. E são menos drásticos como os algozes de Getúlio Vargas e os que levaram à renúncia de Jânio Quadros ou os assassinos de Chico Mendes, que devem sustentar que não fizeram nada de errado.
Numa dimensão menor, mas com propósitos iguais, e que muitas vezes pode levar pais de família aos extremos, quando introjetam um sentimento de fracasso diante das pessoas que dependem deles, o profissional que, aprendendo a se constituir cidadão e, por força dessa condição, não se cala diante de injustiças, cobrando, dos que estão ocupando cargos de chefia, atitudes éticas e de respeito à área em que pertence, é visto como empecilho, como obstáculo à ascensão dos mesmos, sendo por isso demitido ou, do jeito como acontece e para melhor caracterizar o ato, expurgado da empresa.
Algumas dificuldades para o que demite ou o incentivador aparecem nessa hora fatídica. No caso do demitido ser profissional da educação e, mais especificamente, professor, o embaraço começa quando o dito cujo não tem motivos óbvios para ser mandado embora, quando conseguiu construir um relacionamento de respeito e conquista de seres humanos, ao invés de vê-los simplesmente como alunos (em seu sentido etimológico de “sem luz”), como faz um número significativo de professores e mostrando-lhes que conhecimento científico não se dá e nem se passa. Ao contrário, ele se constrói através de muito esforço, sendo, segundo Maturana e Varela (1997), autopoiético.
Há quem incentive e quem aceite os estímulos. Esse, em cargo mais elevado, de direção, por exemplo, visando uma administração democrática, onde delegar poderes é parte integrante de tal estilo de gestão, acredita em tudo que os subalternos dizem, homologando as decisões tomadas, principalmente quando esses são verdadeiros aduladores que, numa visão maquiavélica, vivem à sombra do poder, sugando os benefícios que este oferece, para se perpetuar no posto ocupado. Na íntegra, sobre tal tema, o pensador, historiador, diplomata e músico italiano Nicolau Maquiavel (1994: 113) já lá no século XVI, assim profetizou:


(...)e estes são os aduladores de que as cortes estão pejadas: porque que os homens tanto se comprazem nas suas coisas próprias, e aí de tal modo se enganam, que com dificuldade se defendem desta peste, e, a quererem defender-se dela, correm perigo de se expor ao desprezo. Porque não há outro modo de o príncipe se guardar dos aduladores que não seja o conhecimento que os homens tenham de que o não ofendem com dizer a verdade; mas o facto é que também quando cada um pudesse dizer a verdade ao príncipe não se teria para com ele toda a reverência. um príncipe prudente deve usar, portanto, de um terceiro modo com eleger no seu Estado homens sábios e só a eles livre arbítrio para lhe dizerem a verdade, e apenas acerca daquelas coisas que lhes pergunte e não acerca doutras; mas deve interrogá-los acerca de tudo e, depois de lhe ouvir a opinião, deliberar por si, a seu modo; e deve, nos conselhos, portar-se de tal modo com cada um deles, que cada um deles, que cada um saiba que quanto mais livremente se lhe fale, tanto mais o que assim proceder lhe será aceite: fora dos conselhos não deve afrouxar nas decisões tomadas, e deve obstinar-se nas suas resoluções. Quem proceder de outro modo, ou é precipitado pelos aduladores, ou muda amiúde pela variedade dos pareceres; do que resultará que seja pouco apreciado.

Esta postura deixa antever que quem a assume, publicamente veste uma carapuça de incompetência e demonstra uma enorme insegurança ao ver questionados os seus atos. E, sendo assim, o contestador, por tal descomedimento e revelando um suposto conhecimento a mais que o contestado, precisa ser, como foi, expurgado do convívio dos demais, para não ter a oportunidade de ´contaminar` os outros. Calar uma voz herética, que macula o poder ou quem está nele, quem se apodera dele ou quem, doentiamente, introjeta o poder de tal maneira, que se entende como o próprio poder, é a primeira solução que vem à mente.
Larrosa (2004: 48), nessa linha de raciocínio, diz que

O poder não funciona apenas intimidando e fazendo calar. A presença do poder não se mostra apenas no silêncio submetido que ele produz. O poder está também nesse burburinho que não nos deixa respirar. E, muitas vezes, até mesmo na maioria das vezes, o poder está em todas essas incitações que nos fazem calar. Mas que nos exigem falar como está ordenado, segundo certos critérios de legitimidade.

Esse pensamento abre possibilidades de se buscar outras palavras mais simplórias, mais próximas do bom senso do senso comum, que caracterize o silenciado, quando o identifica como o “boi de piranha”, numa estratégia do boiadeiro, que faz primeiro passar o animal mais magrinho em outro ponto do rio, sacrificando-o, para que os outros atravessem sem correr riscos de serem devorados pelos terríveis peixes.
Assim, a partir do silenciamento, cria-se uma aura de medo entre os que ficam e o ambiente fica insustentável, irrespirável. Neste caso, o sentimento de impotência se agiganta pelos quatro cantos do lugar, fazendo com que alguns experimentem uma sensação de covardia pairando sobre suas cabeças.
Do jeito como as articulações são feitas nesses momentos, para surtirem os fins desejados, é muito provável que consigam imputar ao demérito a culpa pela morte de Joana D´Arc ou até mesmo, ficção à parte, Odete Roitmann. Não tendo como se defender de calúnias construídas para justificar o injustificável, o pensamento de Göebbels (reveja o 1º § desse artigo) toma força nessa hora. Quando a difamação é construída por pessoas que usam o nome de Deus num país de maioria católica e, portanto, crente neste Ser Supremo, que usa esse artifício como forma de ter credibilidade ante os seus pares, torna-se extremamente difícil reverter a situação.
O que se pode afiançar em comunhão com o pensamento da Banda de rock Camisa de Vênus no título de uma das suas várias composições, é que, também, “eu não matei Joana D´Arc” e nem há como figurar na lista dos prováveis assassinos de Odete Roitmann ou de Salomão Ayalla. Uma confissão precisa ser feita neste momento de suspeitas ou de denúncias de culpas infundadas, quando não se tem coragem de matar uma indefesa formiga: não se deve matar nem as próprias esperanças em nome de Deus, até por que existem muitos falsos profetas, profanando o nome Dele, mesmo se dizendo crente.
É preciso que os que ficam não se deixem levar pelo místico canto das sereias e procurem construir alternativas de sobrevivência bem distantes das adulações previstas e denunciadas por Maquiavel. Quem foi afastado do convívio dos demais, mesmo assim, busca fazer isso ainda como heróico esforço de não se permitir ser visto e entendido como covarde ou canalha que conspirou contra instituições, que lhe amparou ou como péssimo profissional como tentam lhe imputar. Certeau (1994: 287) em muito contribui com essa idéia, ao dizer que

os combatentes não carregam mais as armas de idéias ofensivas ou defensivas. Avançam camuflados em fatos, em dados e acontecimentos. Apresentam-se como os mensageiros de um “real”. Sua atitude assume a cor do terreno econômico e social. Quando avançam, o próprio terreno parece que também avança. Mas, de fato, eles o fabricam, simulam-no, usam-no como máscara, atribuem a si o crédito dele, criam assim a cena da sua lei.

É importante registrar aos leitores que fizeram parte desse enredo, principalmente os alunos, o quanto se respeita e se gosta da instituição e da profunda consideração nutrida por eles, razão incontestável pelos vinte e nove anos de efetivo exercício profissional no campo da educação.
Se não for pela vitória, tem que valer pelo esforço da luta!

* Mestre em Educação pela UERJ, professor do Ensino Médio e Orientador Educacional da Rede Pública Municipal de Cabo Frio, professor de Gestão da Unidade Escolar I e II e de TCC da Faculdade de Educação Silva Serpa, no Município de São Pedro da Aldeia e, atualmente, ocupando o cargo de Chefe do Serviço de Orientação Educacional de 5ª a 8ª séries, de Ensino Médio e EJA na Secretaria Municipal de Educação de Cabo Frio.
Nota: ¹.Disponível em: http://www.classicitaliani.it/machiav/mac64_let_05.htm. Acesso e captura 15 Abr. 07.
Referências bibliográficas
CERTEAU, Michel de. A Invenção Do Cotidiano – 1. Artes do fazer. . Petrópolis, Vozes, 1994.
LARROSA, Jorge. Pedagogia Profana: danças, piruetas e mascaradas. Tradução de Alfredo Veiga-Neto. 4. ed., 2ª imp. – Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
MAQUIAVEL, N. O Príncipe. [Tradução de Carlos E. de Soveral]. 5. ed. – Lisboa: Guimarães Editores, 1994.
MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. De máquinas e seres vivos. Autopoiese, a Organização do Vivo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
MULLEM, Gustavo; NOVA, Marcelo (compositores). Eu não matei Joana D´Arc. Salvador, Brasil. Som Livre, 1983. Intérprete: Camisa de Vênus.

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